Canto do Inácio

Thursday, September 07, 2006

Aos 50, melhor faroeste de Ford ganha edição especial
INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Não é preciso esperar pela segunda cena para perceber que estamos diante de uma obra-prima. A porta que se abre para a paisagem árida, o interior da casa em contraluz, a mulher que avança até a varanda da casa, a paisagem que se torna cada vez mais vasta, mais imponente e na qual, aos poucos, se distingue a presença de um homem que se aproxima a cavalo.
Este plano de uma melancolia insuperável é o início de "Rastros de Ódio". Talvez seja o maior faroeste de todos os tempos, certamente é o melhor, o mais maduro, o mais complexo de John Ford -e ganha edição comemorativa de seus 50 anos.
Esta edição restaura o formato VistaVision. Na antiga versão, optou-se pela "tela cheia", o que adulterava os enquadramentos. Mas, fora do cinema, a mudança não é tão profunda. Ford não é um cineasta do enquadramento, e sim um contador de histórias imbatível.
A real diferença aqui vem do disco em que várias seqüências são analisadas por John Milius, Curtis Hanson e Martin Scorsese, comentando desde a primeira impressão -juvenil- que sentiram até as descobertas feitas já como profissionais.
"Rastros de Ódio" está no centro da produção de Ford. Alguém, no disco de extras, lembra que ele se sentia um pouco como o personagem de Ethan Hawke -solitário e sem lar, depois de fazer 140 filmes e ficar anos na guerra. Aventa-se, inclusive, que os modos duros e o jeito intratável de Hawke eram muito semelhantes aos do próprio Ford. É possível...
Mas o amargor de Hawke, seu caráter de herói detestável, vai além de possíveis identidades biográficas. O filme -sobre o homem que procura incansavelmente pela sobrinha, seqüestrada por índios- toca na tecla mais sensível da formação americana, o racismo, observado aqui como a verdadeira tragédia do país, e ainda nos fala do lar e do homem errante, da busca pelo sangue, do ódio, da Guerra de Secessão, dos sofrimentos do Sul derrotado etc.
Quem acha que isso é exagero pode ficar com a história de Carroll Baker, que certa vez o atazanava, pedindo que fizesse o filme "que nem Ingmar Bergman". Ford perguntou: "Bergman? Quem é Bergman?". No dia seguinte, enquanto Carroll se preparava para a filmagem,
Ford chegou perto dela: "Ah, já sei quem é Bergman. É aquele sueco que me acha o melhor diretor do mundo". E Baker não tocou mais no assunto. Ford era um gigante. Mesmo fazendo o filme mais dolorido de sua vida, seu espectador, ao final, se sente feliz e pasmo diante de tanta força. "Rastros" chega aos 50 anos intacto.

1 Comments:

  • Inacio,
    Voce fez um libelo magnífico, que "Rastros" merece. No entanto, o nome do personagem precisa ser corrigido.
    Reinaldo

    By Anonymous Reinaldo André Franzini, at 10:29 AM  

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