Canto do Inácio

Wednesday, April 08, 2009

'HANA-BI' CONFRONTA A VIOLÊNCIA E O VAZIO
INÁCIO ARAUJO

Takeshi Kitano é um desses cada vez mais raros factótuns do cinema. Dirigiu, escreveu, montou e protagonizou "Hana-Bi". De passagem, ganhou o Festival de Veneza 98 e aplausos gerais da crítica européia e americana.

Estranha unanimidade para um filme difícil, cujo centro é a estruturação das sequências numa ordem que desobedece a organização linear, embora nem por isso busque a não-linearidade.Sua história pode ser assim resumida: o policial Nishi deixa de participar de uma incursão aos redutos da Yakuza (a máfia japonesa) para visitar a mulher, que tem leucemia, em um hospital. Durante a batida, seu colega Horibe é baleado e torna-se paraplégico.

A partir daí, os destinos de Nishi e Horibe se confrontam. Enquanto o primeiro arrasta a dor da mulher à beira da morte e endivida-se com a Yakuza, Horibe sofre em uma cadeira de rodas. Isso até que Nishi decide assaltar um banco, para arranjar dinheiro para uma viagem com a mulher e acertar as contas com a Yakuza.

Como se trabalhasse pensando em Eisenstein, Kitano não desenvolve toda a ação. Sugere-a. Trabalha seus interstícios: quadros estáticos que se juntam como ideogramas. O próprio título é sintomático. "Hana-Bi" associa as idéias de flores (que Horibe pinta em sua solidão) e armas (que Nishi usa). Flores junto a armas terá o sentido de fogos de artifício.

A função do ideograma, retomada por Eisenstein no cinema mudo, é essa: duas imagens criam uma terceira, que sintetiza as anteriores, mas as ultrapassa. O princípio, interessantíssimo, dá a Kitano um lugar original no cinema contemporâneo, o que não impede o espectador de sentir-se excluído (sobretudo no início) da narrativa e, portanto, de sua reflexão sobre dor e violência.

O filme ganha mais fôlego na segunda metade, quando Nishi organiza sua vingança contra a Yakuza e o mundo. Essa segunda metade poderia, no mais, ser vista como um sofisticadíssimo "Desejo de Matar" ou "O Passageiro da Chuva" (que era um "Desejo de Matar" metido a besta, estrelado pelo mesmo Charles Bronson).

Tudo o que em "Desejo" é um apelo à ordem quase fascista aqui se transfigura na necessidade de Nishi de viver e dar vida às pessoas amadas. Como, é claro, não possui esse dom, Nishi o ritualiza: os fogos de artifício surgem como expressões de um vazio. Nele, entra a ação não como resgate desse vazio - irresgatável -, mas como um movimento que, à falta de sentido, dá à existência sabor.

"Hana-Bi" é um filme por vezes estranho, por vezes familiar. Quando sua idéia consegue ser plenamente percebida, entusiasma. Em outros momentos, ameaça ficar enfadonho. Nunca vulgar.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 28 de agosto de 1998)

2 Comments:

  • Me desculpem. Não consigo evitar.Cito Mario Faustino mais uma vez:"Não conseguiu firmar o nobre pacto/ Entre o cosmos sangrento e a alma pura /(...) Gladiador defunto mas intacto/ Tanta violência mas tanta ternura".

    By Blogger jose, at 6:30 PM  

  • Tá perdoado, José.
    Bela leitura do Inácio. Valeu Diego.

    By Blogger Andre de Paula Eduardo, at 7:22 AM  

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