Canto do Inácio

Tuesday, September 01, 2009

CINEASTA EXERCITA AMADURECIMENTO
INÁCIO ARAUJO

Tudo em "A Última Noite" diz respeito ao 11 de setembro, embora sejam bem poucas as menções ao atentado - e nenhuma explícita.

O filme começa com Montgomery "Monty" Brogan (Edward Norton) salvando a vida de um cachorro. É a única coisa certa que fez na vida, pensará depois. Esse cachorro o acompanhará ao longo de todo o filme como a lembrar da importância de cada momento, ou de momentos específicos, dentro da vida de um homem.

Mais tarde veremos Monty ser preso, com toneladas de drogas escondidas no estofamento do sofá de sua casa. Ele pretendia deixar o negócio, mas a ganância o levou a transgredir ainda uma vez. Essa vez mudou seu destino e o levou a ser condenado a sete anos de prisão.

Liberdade e atitude

Todo o filme de Spike Lee gira em torno de sua última noite de liberdade e da atitude que terá de tomar ao amanhecer: entrega-se à prisão, mata-se ou foge? Isto é, ainda uma vez, nessa última noite, tudo será questão de optar, de tomar uma decisão que afetará sua vida.

Qualquer dessas possibilidades o levarão a se afastar das pessoas que fazem parte de sua existência: Naturelle, sua mulher, e os dois amigos de infância, Jakob e Frank.

Com exceção de Naturelle, convém enfatizar, nenhum desses personagens é negro. E mesmo ela é uma mulata porto-riquenha. As contradições sociais e raciais, de que Nova York é tão pródiga, são decididamente colocadas em surdina, com exceção de uma sequência (talvez a mais forte do filme, em compensação), em que Monty deblatera contra mais ou menos todas as etnias que fazem parte do dia-a-dia da cidade. E exceto, ainda, pela presença de mafiosos russos.

Nova visão

De todo modo, o essencial não são as contradições, mas os encontros e reencontros. Em seu drama, Monty Brogan se descobre e redescobre os amigos. Pois o seu trauma é correlato ao 11 de setembro, em que um acontecimento leva as pessoas a encarar de outro modo aos outros, a si mesmas, à vida em geral. E Nova York, claro.

É possível dizer que "A Última Noite" sofre, em determinados momentos, de excesso de literatura. Que lhe falta o impacto daqueles trabalhos em que observa a violência das relações brancos/ negros (como o recente "A Hora do Show").

Aqui quase tudo parece refletido e pesado, como se o golpe simbólico representado pela destruição das torres gêmeas levasse Spike Lee a um exercício de introspecção. Ou, de certa forma, de amadurecimento.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 23 de maio de 2003)

3 Comments:

  • Olha

    A ultima noite é um dos melhores filmes de 2000 pra cá pra mim. Vi o filme na mostra SP de 2002 e fiquei pensando mais de meses nele.

    By Blogger El Cabrón, at 8:57 PM  

  • Talvez seja porque o Inacio escreveu esse texto tres anos antes;mas,como poucas vezes,eu vou discordar dele.Amadurecimento eu vi em "O Plano Secreto".

    By Blogger jose, at 2:35 PM  

  • Após a morte do Patrick Swayze, ocorreu-me: é raro vermos aqui coisas do IA sobre filmes ditos "menores", ao estilão anos 80, coisa como Ghost mesmo, ou até Karate Kid e John Hughes (outro recém-falecido). Fica aí uma dica.
    Aliás, seria bom ler algo sobre "Rumble Fish" e "Outsiders", sobre Oliver Stone anos 80 e John Landis.
    Como sempre, exagerei, talvez hehe.
    Abraços!

    By Blogger Andre de Paula Eduardo, at 7:54 PM  

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