Canto do Inácio

Monday, June 09, 2008

UMA AULA DE FAROESTE PELO MESTRE KING VIDOR
INÁCIO ARAUJO


Em uma das cenas de Homem Sem Rumo, Kirk Douglas faz uma demonstração de malabarismo com o revólver para seu jovem escudeiro, Texas Kid. O Kid assiste a tudo aquilo admirado, enquanto o espectador vê com desconfiança o exibicionismo vulgar de Kirk. Por alguns segundos, porém: em um instante, ele interrompe o gesto, quebra o encantamento em que está mergulhado o garoto e arremata com uma frase definitiva:

"Rodar a arma não vai salvar a sua vida. Só atirar".

A seqüência – bela porque trabalhada em um limite extremamente perigoso – é ao mesmo tempo uma postulação estética: não é o efeito que vale, mas a objetividade; não é a grandiloqüência, mas o vigor. Elementos que se encontram com vigor na obra de King Vidor e que poderemos rever ainda uma vez neste que é um dos melhores "westerns" dos anos 50 (um período de fausto do gênero). Mas, como toda posição estética, também esta implica uma renúncia: chegar ao ponto, contar sua história, significa igualmente abrir mão da "arte", da "profundidade", o que Vidor faz sem hesitação.

Nas mãos de um cineasta menos seguro,o roteiro de Borden Chase e D. D. Beauchamp poderia sem dificuldade tornar-se o estudo do caráter de um homem que, embora apto a enfrentar as áridas condições de vida do Oeste, prefere deslocar-se, evitar as barreiras que surgem à sua frente; poderia até se converter em uma ingênua parábola pacifista.

Nada disso com Homem Sem Rumo: ao contar a história do homem errante que encontra o jovem Texas Kid num trem e o inicia na vida, King Vidor opta por uma perfeita sujeição do significado à história. Talvez por isso seja possível discernir tantos sentidos possíveis no filme. Mesmo se sabemos de Vidor – por todo seu passado – que é antes de mais nada um individualista, essa posição não se mostra genericamente, mas de forma pontual: há que ver como Dempsey Rae (Kirk Douglas) saca a arma rápido como um relâmpago contra seu próprio amigo ou como – de modo igualmente fulminante – abre sua camisa para mostrar as chagas causadas pelo arame farpado. Há que ver cada imagem, seguir cada passo do homem sem rumo para entender-lhe o passado e justificar o presente: desmontar um destino e remontá-lo diante de nossos olhos.

Em outras palavras, a estética que prega King Vidor sustenta-se da capacidade de criar vida através do acúmulo de um sem-número de pequenos detalhes que isolam o personagem da multidão (da Turba, título de seu clássico filme mudo) e fazem desta vida – ao inicio como ao final – um perfeito mistério. Porque entre tantas coisas que nos diz esse filme, onde a beleza não raro deriva em perversão (como no caso da proprietária de gado) e a violência sem poesia, podemos isolar em Homem Sem Rumo a idéia de um perfeito mistério do destino humano: absolutamente pessoal, ele é, por paradoxo, comum a todos os seres. Tangível, na medida em que o visualizamos, ele permanece no entanto insondável: para além da Justiça e da Injustiça, da Felicidade ou da Infelicidade, a vida é a um só tempo tautologia (que se afirma sendo) e labirinto (perda, ausência de rumo).

Um grande filme, clássico pelo desenvolvimento da intriga, moderno pela seca elegância, eterno pela magistral alternância de tempos fortes e fracos, pela orquestração de elementos que vão desde a excepcional presença de Kirk Douglas até a secura de uma decoração onde não se vê traço de azul (e portanto de tranqüilidade). Cada plano tem uma idéia, mas ele não se impõe como tal, não faz questão de ser percebida como raciocínio, mas como vida.

A arte de King Vidor talvez seja um pouco como o corpo de Dempsey Rae (Kirk Douglas): algo que esconde com cuidado e que, se mostra, o faz apenas por completa necessidade. O filme que passará hoje à noite na TVS é um desses que se pode ver, rever, rever de novo e, se possível, gravar: não é todos os dias que se assiste a uma aula de cinema.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 27 de abril de 1983)

2 Comments:

  • Foda.

    By Anonymous José Roberto, at 9:53 AM  

  • A melhor exegese que li sobre este belíssimo western do grande King Vidor,
    que revela um agudíssimo sentido de análise dos elementos significantes de
    "Homem sem rumo" ("Man without a star", 1955). Eis a questão: "desmontar um
    destino e remontá-lo diante de nossos olhos." Aliás, uma constante na filmografia de
    Vidor é a luta individualista do homem contra uma sociedade hostil e, até
    mesmo, contra si próprio, a procurar mudar o seu próprio destino.

    Em "A turba" ("The crowd", 1928), ainda da estética da arte muda, os planos
    iniciais do "formigueiro" humano e dos edifícios são de uma majestade
    indiscutível e não resta dúvidas que foram copiados por Billy Wilder para a
    abertura de "Se meu apartamento falasse" ("The apartment", 1960) num
    processo de criação cinematográfica que une o senso estético de Wilder com o
    sentido cenográfico excepcional de Alexander Tauner.

    Mas o que importa dizer é que esta análise de "A man without star" é
    antológica. Encontra-se nela a extração do "supra sumo" do discurso de
    Vidor, que, com brilhantismo e fluência insuperáveis abre mão, como é dito,
    da "arte", da "profundidade", em função da objetividade, da clareza e da
    beleza.

    By Blogger André Setaro, at 7:53 AM  

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