Canto do Inácio

Monday, May 05, 2008

O SONHO QUIXOTESCO DE WELLES
INÁCIO ARAUJO


Não existe uma versão cinematográfica do "Quixote" que beire a celebridade do romance de Cervantes. E não faltam versões cinematográficas, com Ferdinand Zecca como o primeiro cineasta famoso mencionado por adaptar um "Quixote", em 1903. A versão realizada por Pabst na Alemanha, em 1933, é dificilmente abordável. A de Grigori Kozintsev (ex-URSS, 1957) não parece ultrapassar os limites do academismo na era pós-stalinista. Na Espanha foram feitas várias versões, sem repercussão. Também a TV produziu seus "Quixotes". Ao todo, são registradas cerca de 30 versões.

Mais famosos ficaram os projetos de dois cineastas americanos. Howard Hawks comentou durante ao menos duas décadas sua intenção de juntar Cary Grant e Cantinflas em sua versão. Hawks tinha no mínimo duas características capazes de levá-lo a conceber um bom "Quixote": o senso de humor e o estilo livre de afetação -características que o aproximam de Cervantes. O fato é que de seu plano nada surgiu.

Orson Welles, ao contrário, trabalhou pelo menos 20 anos num projeto iniciado em 1955 e que foi um de seus grandes investimentos. O filme começou como uma encomenda para a televisão CBS, mas a versão de meia hora apresentada por Welles foi rejeitada por excessivamente anticonvencional para os padrões da época (e a TV na época tinha muito menos convenções do que hoje).

Daí por diante, a empreitada tornou-se uma obsessão pessoal de Welles. Sempre que lhe sobrava algum dinheiro (o que ganhava como ator costumava investir em suas produções), Welles reunia o elenco e a equipe e filmava um novo fragmento do "Quixote". Até quatro meses antes de sua morte, em 1985, Welles fazia planos de concluir o trabalho.

O certo é que, ao menos no que diz respeito à filmagem, nessa altura o projeto já estava irremediavelmente comprometido, com as mortes de Francisco Regueira (o Quixote), em 1969, e Akim Tamiroff (o Sancho Pança), em 1972. A exemplo de "É Tudo Verdade", o filme latino-americano de Welles, "Dom Quixote" se transformara em mito. O diretor cogitava, seriamente, segundo seu biógrafo Frank Brady, dar-lhe o título de "Quando Você Vai Terminar Dom Quixote?" - de tanto que lhe faziam a pergunta.

A história que se segue à morte de Orson Welles é de difícil compreensão. Primeiro, Costa-Gavras montou uma versão de 40 minutos do material, patrocinado pela Cinemateca Francesa. Mais tarde, o produtor Patxi Irigoyen comprou da atriz Oja Kodar - herdeira dos direitos dos filmes incompletos do cineasta - mais 30 mil metros de negativos que estavam fora da montagem de Costa-Gavras e 10 mil metros que nem tinham sido revelados, além de algumas cenas que haviam ficado com amigos de Welles nos EUA. Ainda assim, Irigoyen acha que faltou uma cena capital, quando Quixote investe contra uma tela de cinema.

Depois de restaurado, o negativo foi entregue a Jess (ou Jesus) Franco, diretor espanhol de muitos filmes. A versão, apresentada em 1992 com o título de "Dom Quixote de Orson Welles", foi dinamitada pela crítica e acusada de traição a Welles.

É possível, mas seria insuportável que se tivessem perdido definitivamente, embrulhadas numa querela sobre autenticidade sem nenhuma perspectiva de solução, coisas como as interpretações de Regueira e Tamiroff, entre outras.

Regueira era o Quixote em pessoa, com seu tipo muito magro, a expressão ao mesmo tempo obcecada e sonhadora. Welles devia ter uma opinião parecida, já que optou por Regueira mesmo sabendo que ele, exilado por conta do franquismo, não podia voltar à Espanha para filmar.

O diretor concebeu seu "Quixote" na atualidade, o que é uma maravilhosa insânia. Welles criou cenas memoráveis, como o espantoso encontro entre Quixote e uma garota de lambreta. Ele dizia que sua intenção era marcar o caráter atemporal do personagem. Ao mesmo tempo, rompia com a subserviência do filme em relação ao texto original, que no caso de livros demasiadamente célebres quase sempre leva à catástrofe. Por fim, o aspecto de obra que comenta a obra, já presente no livro, se reafirmava de maneira original.

No mais, Jess Franco acrescentou, entre as cenas, material em que o próprio Welles aparece, o que reforça o caráter de obra recuperada (a versão em DVD que existe no Brasil é de qualidade precária, o que é uma pena).

Para voltar ao início, dos dois grandes cineastas americanos que cultivaram o projeto de um "Quixote", apenas Welles levou-o adiante, e de maneira tenaz. Não que Hawks não fosse tenaz. É que, talvez, fosse necessário algo mais para fazer um "Quixote" de peso. Welles quis compor a imagem de um fabuloso sonhador, capaz de olhar para moinhos de vento, enxergar gigantes e, contra toda evidência, colocar sua visão poética do mundo à frente da trivial realidade. Essa luta, de certa forma, resume Orson Welles, que foi um Cervantes, pela grandeza, e também um Quixote do cinema.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 16 de junho de 2005)

1 Comments:

  • Ano passado, no blog do Chicago Reader, o Jonathan Rosenbaum publicou um trechinho do "Quixote" que ele chamou muito propriamente de "os seis minutos mais belos da história do cinema". É exatamente a cena em que o Quixote invade o cinema, derruba a tela, à Buster Keaton, à Les Carabiniers. O trecho está sem som, mas o mais importante é que talvez seja uma das únicas seqüências do filme montadas inteiramente pelo próprio Welles.

    Para assistir: http://blogs.chicagoreader.com/film/2007/10/18/-most-beautiful-six-minutes-history-cinema/

    By Anonymous Rodrigo de Oliveira, at 6:52 PM  

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