Canto do Inácio

Thursday, April 16, 2009

O LUXO DO LIXO
INÁCIO ARAUJO


"Seus bundas-moles! Vocês não têm uma unha do talento desse homem!" A frase de Luís Sérgio Person, dirigida aos alunos da Escola Superior de Cinema, que acabavam de humilhar José Mojica Marins num debate, resume a conturbada trajetória do diretor e ator, criador do Zé do Caixão.

Corriam os anos 60, mas Mojica já começava a merecer o título da biografia que André Barcinski e Ivan Finotti lançam: "Maldito".

Zé do Caixão acabava de explodir, com "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (64). Lá estava o coveiro, meio analfabeto, meio nietzschiano, instaurando um inferno à brasileira: improvisado, feito com trucagens primitivas. Mas dotado de uma compreensão visceral do cinema. E, para completar, um arrasador sucesso de público.

Um gênio ou uma besta? As opiniões dividiram-se. Barcinski e Finotti narram a cena ocorrida em um cinema do Rio. Havia um tumulto na sala. O lanterninha saiu desesperado: "Tem um maluco gritando lá dentro". Era um cara de cabelos desgrenhados, camisa aberta, berrando: "Puta que pariu, esse cara é um gênio".

O maluco da platéia era Glauber Rocha, que desde então integrou-se ao seleto grupo de defensores de Mojica: além de Person, Roberto Santos, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach e o crítico Salvyano Cavalcanti, entre outros.

Apesar de encontrar defensores de peso, havia um problema: como integrar Mojica a um cinema então dominado pelas preocupações sociais do cinema novo?

Talvez a melhor análise da situação tenha sido feita por Cavalcanti no extinto "Correio da Manhã": "(...) analistas desapaixonados irão reconhecer: a eclosão do cinema de Marins representa fato novo, da mesma dimensão que hoje se tem como pacífico a respeito de Humberto Mauro, cineasta também puro, intuitivo, genuíno em sua brasilidade e na abordagem formal - e durante tantos anos subestimado pela crítica, então preocuapada em discutir as teorias alienígenas, enquanto descriam (...) das coisas brasileiras".

A questão de como inserir Mojica numa tradição é, em parte, o assunto desta biografia. O que fazer com um fulano criado na Vila Anastácio, que nem escrever um roteiro conseguia? No mais, um possível trambiqueiro, dono de uma suspeita escola de interpretação? Isso é gênio que se apresente? Barcinski e Finotti demonstram que não existe incompatibilidade entre a inteligência, a capacidade de compreender o cinema e apreender o Brasil e tudo o mais.

Não existe incompatibilidade nem mesmo entre suas virtudes artísticas e a capacidade autodestrutiva, que acabou por levá-lo quase à miséria justamente nos momentos em que, com o sucesso, tinha tudo para enriquecer.

Então, fez de tudo: TV, quadrinhos, marchas carnavalescas - sem falar dos filmes e da escola de atores. Enfiava os pés pelas mãos e saía do negócio com mãos abanando, um processo nas costas ou a fama de picareta reforçada.

Não era um homem confiável, sobretudo para a censura, com quem teve relações tensas, a ponto de uma censora afirmar, em seu parecer, que, "se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor".

O censor Augusto da Costa - beque da seleção brasileira de 1950 - tomou inclusive a liberdade de reescrever a cena final de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver". Ali, quando Zé do Caixão afundava em um lago, bradando "Eu não creio!", Mojica foi obrigado a redublar a cena, acrescida agora de uma declaração de fé: "Sim, Deus é a verdade!" etc.

Foi a censura, desde que o regime militar endureceu, com o AI-5, que acabou decretando a morte de Zé do Caixão e a decadência de Mojica, então forçado a fazer filmes de encomenda.

Zé só ressurgiria nos anos 90. Enquanto Mojica batalhava no Brasil, inutilmente, para filmar, Zé do Caixão emplacava nos EUA, com o nome de Coffin Joe. Essa é a sina do aventureiro.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 25 de abril de 1998)

2 Comments:

  • "Eu não creio!" <
    "Sim, Deus é a verdade!"

    hahhahahhaha q absurdo. que tragédia.
    não conhecia essas histórias "pitorescas". muito bom esse texto, delícia.

    By Blogger valeska, at 10:40 AM  

  • O Brasil é tão absurdamente trágico que parece piada.Talvez tudo seja como o Paulo Francis dizia:A vida é uma piada.Talvez um cronista isento do nosso país por mais que dê voltas termine sempre chegando num filme de terror do Mojica ou nas tiradas do Millor.Claro que há as exceções como o Eduardo Coutinho.

    By Blogger jose, at 4:46 PM  

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