Canto do Inácio

Wednesday, July 11, 2007

CÃO CARETA?
INÁCIO ARAUJO

Na Ilustrada, não nas páginas, mas na Redação, uma polêmica interessante. O Marcos Augusto, o editor, acha “Cão sem Dono” careta, por causa do final: história do rapaz recorrer à família, se entender com ela.

Silvana Arantes, a repórter, diz que não agüenta mais ver famílias desfuncionais no cinema brasileiro. E que adorou justamente o fato de pai e filho se entenderem.

Bom, nessa discussão estou mais para Silvana, um pouco por espírito de contradição. E por que pais e filhos nunca podem se entender no cinema brasileiro?

Na verdade, eu gosto muito daquele livro do Chesterton, “O Homem que Foi Quinta-Feira”. E gosto daquele poeta para quem a coisa mais bonita do mundo é a normalidade. É o funcionamento quieto e normal do estômago que é poético, diz ele (ou algo assim). É muito difícil representar a norma, e muito difícil colocar o personagem masculino naquela situação.

6 Comments:

  • Não sei se poderíamos chamar de "careta" uma conversa em que um pai fala abertamente ao seu filho sobre sua experiência com cocaína... Pelo menos não me lembro de ter visto um diálogo tão honesto no cinema nacional recente...

    Também não sei se as famílias no cinema devessem ser retratadas sempre como OU disfuncionais OU opressoras. A do filme não me pareceu nem uma nem outra.

    Abraços, Inácio.

    Carlos Lopes

    By Anonymous Carlos Lopes, at 8:59 AM  

  • Boa essa conversa,boa. É bem interessante perceber como somos prisioneiros das palavras e de seus significados - "datados", claro, ainda que em nosso ciclo da vida. Um dia adolescemos, e careta era... muito mau! Fica a palavra e, num outro ciclo da Humanidade, num repensar obrigatório, numa necessidade de reinventar quem somos e,afinal, o que fazemos por aqui, frente a tantas catástrofes que nós mesmos construímos, surge o cão sem dono! Vi no prêmio Jairo Ferreira e fiquei quase desconfortável com aquela câmera direta sobre os personagens, tudo muito simples - uma descida para rever o que estamos fazendo com nossas relações: familiares, caretas, o que for.
    Fico com a Silvana, com o Carlos Lopes, com o Inácio. É preciso desconstruir, sem dar nomes!!!

    By Anonymous Jane Ferreira, at 3:27 PM  

  • Inácio, acho que Cão Sem Dono vai muito além disso. É a questão do auto-conhecimento, do "se encontrar" que está no filme. Acho que isso não tem nenhuma relação com a família. Esta foi apenas a maneira que o personagem encontrou, mas poderiam ser de muitas outras formas, dependendo do contexto.

    Careta é quem diminui o filme só por ele dar à família do Ciro um papel tão importante na trama.

    By Anonymous R. Santana, at 8:33 AM  

  • Jane

    Lindo seu comentário. Tão bom quanto o filme, quanto a idéia de mostrar uma outra família. No trânsito do personagem, existem várias famílias, existe a dele, orgânica, existe a futura (a marcela), existe o pai circunstancial-escolhido (o zelador) e uma família em gestação (o motoboy e sua esposa grávida)

    Famílias herda´s e famílias eleitas, encontradas, temporárias. O cão é mais um sinal disso. O cão não é dele, o cão é seu amigo, alguém por quem se tem solidariedade e responsabilidade, mas não posse.

    Acho que há sim, em Cão sem Dono, uma linda visão e revisão da noção ampla de família, no contrafluxo histórico, tão bela quanta as de Olivier Assayas em Clean e Arnaud Desplechin em Reis e Rainha

    By Blogger Cléber, at 5:01 PM  

  • Pôxa, Cléber, é mesmo! Em "Reis e Rainha" a coisa toda é muito bela... Aquela mulher com todo o peso do ódio do pai (do qual nem suspeitava!) e ao mesmo tempo a força vital de seguir em frente, começar de novo, com o filho (acho que era filho, né?) Ótima lembrança!!!

    Abraços,
    Carlos

    By Anonymous Carlos Lopes, at 7:17 PM  

  • Esse, para mim, é o maior clichê dentro da indústria cinematográfica nacional. Sempre que o personagem tem um problema, ele recorre à família (com quem, muitas vezes, está brigado), acreditando, com isso, conseguir dar uma volta por cima em sua vida. No entanto, gostei muito de Cão sem Dono (curto a maneira como Beto Brant conduz a sua carreira).

    (http://claque-te.blogspot.com): Paris, Te Amo.

    By Anonymous Roberto Queiroz, at 10:06 AM  

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