Canto do Inácio

Tuesday, January 15, 2008

"FOR EVER MOZART" ATACA O PRESENTE
INÁCIO ARAUJO


Godard não ajeita o filme a nossos desejos. Na tela, o mundo não apresenta a coerência sequencial, essa espécie de conforto que a linearidade propicia: um ator representa um personagem, uma ação leva a uma reação etc.

Nada disso. Em "For Ever Mozart", estamos ora numa agência de empregos, ora numa guerra (na Bósnia), ora numa livraria ou num set de filmagem.

Por onde quer que acompanhemos, o mundo nos escapa, não se deixa apreender apenas pelo fato de ser exibido. Mas é, ao mesmo tempo, um mundo admiravelmente concreto e atual. Nesse sentido, Godard é o cineasta europeu mais próximo dos americanos: procura captar o instante, a coisa viva, imediata.

É claro que a proximidade com os americanos fica por aí. Godard trabalha por associação de imagens e de sons. A Europa de hoje evoca a dos anos 30. E outras. As guerras civis contemporâneas remetem à Revolução Francesa e a seu historiador, Michelet. E tudo remete ao cinema, naturalmente.

De permeio, o espectador topará com algumas formulações bem francesas. "O que é a filosofia?", pergunta um. "A filosofia é alguma coisa entre o quase nada e um não sei quê", responde outro.

Não é muito esclarecedor. Mas nunca ninguém disse que Godard estava aí para esclarecer. Em seus filmes as questões ricocheteiam e voltam como batata quente para as mãos e mentes do espectador.

E assim, o cineasta continua a praticar seu cinema da dúvida sistemática, onde perguntar é sempre mais importante do que responder. O filme vai colando uns aos outros elementos distantes: Mozart, um artigo no "Monde", Fernando Pessoa. Estamos num campo de filmagem que de repente se transforma em campo de batalha. Ou vice-versa. Etc.

Nesse sentido, o primeiro comentário a fazer é sobre o último Godard. Desde os anos 80, seus trabalhos mais marcantes são aqueles em que postulou com mais clareza a derrota pessoal.

O outrora cineasta bem-amado dos anos 60, que se mostra como o cineasta-decadência de "Carmen", ou como o amargo solitário de "JLG por JLG", é, atualmente, seu melhor personagem. Até porque o autor/ator instaurava ali uma unidade de discurso de que talvez se ressintam outros filmes, como "For Ever Mozart".

No geral, é como se o tempo de Godard tivesse passado e ele soubesse disso. Nem por isso ele dá o braço a torcer. Se o homem contemporâneo não tem paciência, nem tempo para se aproximar das coisas (ou do cinema), Godard faz do tempo o tema privilegiado de "For Ever Mozart": o ritmo de vida de hoje lhe desagrada francamente, e ele não faz qualquer segredo a esse respeito.

Pior: os referenciais básicos da civilização também tendem a ser perdidos. Danton a gente ainda sabe quem é (um restaurante em São Paulo, em todo caso). Mas Musset, Michelet, Marivaux, Fernando Pessoa, nem isso.

Também nesse capítulo Godard não faz nenhuma concessão: joga nomes e pensamentos, discute-os, como se fossem matéria corrente nas rodas de pagode.

É verdade que, em troca, o que ele tem recebido é, não raro, a indiferença do público. Todos que, nos anos 60, discutiam à exaustão o significado de seus filmes parecem ter perdido a paciência (e o tempo) para isso. Os mais jovens olham-no como a um dinossauro.

Talvez seja absurdo dizer isso, mas a diferença entre o Godard dos 60 e o dos 90 - além do tempo - poderia bem ser Anna Karina, sua ex-atriz, ex-musa e ex-mulher. No fundo, pouca coisa mudou em Godard de lá para cá, a não ser a disposição. Se antes se abria para as coisas com humor e satisfação, hoje parece um tanto gélido (assim como suas paisagens).

Mas, nessa geleira, não há espectador que não seja capaz de notar, por exemplo, o plano em que junta interior e exterior; no interior, o que se vê são pessoas de costas, sombras, quase borrões na tela; no exterior, ao contrário, há luz, vida, cor, contraste. Uma beleza ao mesmo tempo física e sobre-humana, como certa vez notou o poeta Louis Aragon sobre "Pierrot Le Fou". Nesses momentos reencontra-se Godard. E esses momentos bastam.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 04 de abril de 1998)

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