Canto do Inácio

Monday, February 11, 2008

IDÉIAS QUE ME OCORREM
INÁCIO ARAUJO


Não só no Brasil, mas sobretudo: os filmes agora vêm sempre com o aviso: “Baseado em uma história real”.
O que me parece, em outras palavras, o equivalente a dizer que, se não for real é irreal.
Então, os livros do Machado são irreais? Ou o Morte e Vida Severina? Ou o Balzac? Ou o Dostoiewski?

Que diabo é isso? A ficção está em crise. É como se ela mentisse, sempre. Só valem as biografias. Ou os documentários. Se o Johnny não existisse, não haveria verdade nele. A verdade vem de outra parte que não a escrita, a imagem. Vem da “vida real”.

7 Comments:

  • Também me incomodo com isso. Me parece que querem dar mais ênfase ao enredo que do que às imagens, ou ao cinema propriamente dito.

    No fundo, é só um marketing a mais.

    By Blogger Ivan, at 8:48 AM  

  • Pois é. Antes de entrar no Tropa de Elite me deparei com o seguinte título no cartaz do filme: "A guerra tem várias versões. Essa é a verdadeira"

    Broxei na hora. Depois broxei com o filme também, porque segue a mesma linha de raciocínio. Caramba, esse pessoal nunca viu Hiroshima Mon Amour?

    By Blogger Wolf, at 8:55 AM  

  • No mínimo curioso, mesmo.

    Mas, o que dizer disso tudo quando as pessoas hoje em dia CONVERSAM durante o filme, como se fosse a coisa mais natural do mundo! Freqüentemente apontam para a tela durante a projeção, como se precisassem mostrar para o companheiro ao lado "onde está Wally" ("olha ali, olha lá, escondido"... veja que fotografia linda"...)

    É como se o filme fosse um objeto a se apropriar... uma pipoca ou chocolate para consumo e prazer imediatos. Enfim, é como se o filme devesse se adequar à "realidade" das pessoas, e não o contrário.


    ******************************

    P.S. Por falar nisso, acho muito curioso que entre os livros de ficção mais vendidos figurem sempre histórias "reais" do tipo "O Livreiro de Cabul", "O Caçador de Pipas" e até mesmo "Código Da Vinci"... É como se o apelo da obra de arte estivesse absolutamente desvinculado de seu meio de expressão. O que atrai, enfim, é o lado "fabuloso" da realidade (como essa literatura best-seller), ou, o que não é muito diferente, o "real" do fabuloso (como esses filmes baseados em fatos reais).

    By Anonymous Carlos Lopes, at 3:36 PM  

  • Finalmente leio alguém articulando uma crítica a essa insuportável frase de abertura de alguns filmes. Como disse um dos comentários acima, nada mais broxante do que saber que aquilo que veremos a seguir foi "baseado em fatos reais". Arghhhh. Eu quero outra verdade, a verdade do filme, a verdade da ficção! Desculpem-me pelo desabafo.

    By Anonymous Claudio Adas, at 3:38 PM  

  • O que é na verdade o mais curioso disso tudo é que o jornalismo (a principio o terreno da representação objetiva do real) segue o caminho radicalemnte inverso... Disso ninguém fala. Cd vez mais o jornalismo quer emocionar do que informar e se apropria das técnicas narrativas nas suas matéiras tanto impressas como audio-visuais. Quem sabe essa contaminação (e/ou modismo) da ficção não seja uma resposta inconsciente a isso? fica pra reflexão.
    Abs

    By Anonymous Anonymous, at 5:20 PM  

  • Os marketeiros da indústria é que são baseados em fatos reais. Faturam com traduções de títulos bizarras, cartazes e chamadas que nada têm a ver com o conteúdo do filme.

    Abraços.

    By Anonymous Carlos Moura, at 6:48 AM  

  • Estamos na era da hiper-realidade. Basta ver o número assustador de games e reality shows. É a crise da ficção? Ou nossas vidas estão uma merda tão grande que precisamos ver outras piores do que a nossa para ter um alívio. De qualquer forma, é assustador pra onde tudo isso caminha.

    By Anonymous , at 9:22 AM  

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