Canto do Inácio

Thursday, August 07, 2008

DE BATMAN A ZÉ DO CAIXÃO
INÁCIO ARAUJO


Ao contrário do que muita gente pensa, fui leitor constante, em outros tempos, das histórias do Batman. Naquele tempo ninguém dava importância aos gibis. E, com todo respeito aos fãs atuais, tenho a impressão de que eles pioraram. Hoje não consigo lê-los. Eram uma coisa sem maior responsabilidade. Agora ficaram tão sofisticados, tão complicados, que não entendo o que querem, nem por quê.

Vamos entrar num acordo: indústria cultural não precisa se confundir com alta cultura. Essa confusão entre as duas coisas é que não me parece levar a coisa nenhuma.

Então, não adianta as pessoas me acusarem de não ler o livro: eu justamente não leio o livro. Gibi hoje em dia parece filme de John Huston, tem que ter um “grande problema”, dimensões insondáveis.

Com todo respeito, inclusive tenho amigos que gostaram do filme, não acho que todo mundo deva pensar como eu, essa personagem do Coringa como grande anarquista me parece uma ficção muito fraca, sem graça. Essa sombra muito próxima, muito evidente do 11 de setembro não vejo que enriqueça o personagem, nem seu mundo.

No meio da discussão surgiu um subplot interessante, dizendo respeito ao “autor”. Não sei se eu sou tão autorista quanto alguns pensam, talvez até seja, mas não no sentido de buscar aquele artista romântico do século 19. Como alguém (desculpe, não lembro o nome) escreveu, certos cineastas me parecem mais interessantes quando seus filmes são meio fracos do que outros.

No caso de Christopher Nolan, seus filmes me parecem tão metidos quanto desinteressantes. Está na média do cinema “independente” americano (os independentes de verdade estão na TV, hoje, pelo jeito. Mas isso é assunto para outra hora). Ora, há muitos diretores que ora fazem filmes que me agradam, ora não. Eu não vou lá dizendo “ah, é do fulano então tem que ser ruim (ou bom)”. É claro que eu me engano e às vezes passo a ver as coisas de outro ângulo.

Não vou ficar agradecendo aqui a quem discorda de mim, não é isso. Mas acho que se dessa discussão surgir a possibilidade de ver as coisas por outros ângulos, ótimo. Por exemplo: que tal dar uma olhada no novo filme do Zé do Caixão, que é inventivo, baratíssimo, cheio de horror e de humor, sabe olhar o mundo sem se tomar por grande coisa por isso, além de ter momentos de uma beleza impressionante.

21 Comments:

  • Se entedi bem, a coisa não precisa ser confusa para ser interessante.Concordo.A cena que mais gostei foi a ação no prédio em que um homem se tornou morcego e viu pelo som.Lembrei de outro personagem de HQ conhecido como Demolidor.

    By Blogger jose, at 8:45 PM  

  • Espero que essa postagem seja bem aceita pelo pessoal do gibi, já que o inácio colocou sua opinião de maneira bastante acessível. espero não ter que ler mais uma carriolada de mensagens ríspidas nesse blog.

    E convoco a todos para assistir o filme do josé mojica marins e esquecer definitivamente essa bobagem de filme do batman.

    By Blogger allegro non troppo, at 5:25 AM  

  • "Vamos entrar num acordo: indústria cultural não precisa se confundir com alta cultura. Essa confusão entre as duas coisas é que não me parece levar a coisa nenhuma."

    Difícil entrar em acordo assim. Sempre achei que um dos méritos do bom cinema fosse exatamente bagunçar a distinção entre indústria cultural e alta cultura. "Rastros de Ódio", de John Ford, peca por ser mais sofisticado e complicado do que um faroeste com Tom Mix? Deveria se contentar em ser um simples e descomplicado produto da indústria cultural? E o que é alta cultura em cinema? Dreyer, Bergman, Visconti? Um faroeste de Hawks, um thriller de Hitchcock ou um policial de Fuller não devem ser confundidos com os filmes desses representantes da alta cultura?

    By Blogger Ronaldo Passarinho, at 12:51 PM  

  • Concordo com a crítica. Além dos quadrinhos, os seriados de TV sobre super-heróis também andam pretensiosos demais, com excessos de "complexidades psicólogicas" e "densidades". É o caso de "Smallville".
    Pedro Meira.

    By Anonymous Anonymous, at 8:34 AM  

  • Eu aceito sim a resposta do Inácio e como comentei na outra crítica, o problema não é ter opinião diferente, isso é normal em qualquer ser humano, pois gosto não se discute. Mas a única coisa que não gostei é esse negócio de querer rotular as coisas como filme de heróis tem que ser leve e infantil para deixar a seriedade para outros filmes. Como já comentei, os leitores de Quadrinhos cresceram (não de tamanho, mas intelectualmente) e para esse público de hoje não seria aceitavel um tratamento infantil para as histórias que lê. Se antigamente a idéia era apenas entreter, na qual foi cumprida muito bem, hoje é diferente. O filme só está tendo esse sucesso pois agrada os leitores atuais, porque vê que seu personagem, Batman, está sendo levado a sério e agrada o público que não lê porque é mais um filme de um personagem icônico. Espero ter respondido ao Pedro Meira e ao Non Troppo.

    By Blogger Fabio Farro de Castro, at 11:14 AM  

  • Round 2!
    =D

    By Anonymous Mateus Monteiro, at 7:21 PM  

  • (Abre parênteses)

    Esses "fãs" me lembraram do psicopata de "Save the Green Planet", que após uma vida cheia de infortúnios passa a crer que alienígenas planejam destruir a Terra. Conhecimento todo herdado de filmes B, livros baratos e quadrinhos, é claro. Com toda essa "cultura" ele seqüestra, tortura e mata inúmeras pessoas tentando arrancar delas a confissão de que são alienígenas do planeta Andrômeda.

    Nem sei se esse filme chegou a passar em algum festival no Brasil, mas o comentário ácido sobre essa "baixa cultura" (e que o filme também parece admirar) e o seu poder alienante cabe bem a essa discussão toda.

    E, como a imensa maioria dos filmes sul-coreanos dessa década ele até recusa com veêmencia o cinema como expressão de "alta cultura". É um filme muito, muito bom e surpreendente.

    (Fecha parênteses)

    By Anonymous Marcos, at 8:54 PM  

  • Fanboys às vezes são tão chatos... O buraco na crítica do Inácio é mais embaixo. A distinção entre indústria cultural e alta cultura cheira a mofo.

    By Blogger Ronaldo Passarinho, at 1:17 AM  

  • Quem acompanha o inácio sabe a birra que ele tem com filmes pretensiosos, por isso a crítica sistemática que ele faz aos filmes do cristopher nolan.
    Seria uma boa o pessoal dar uma olhada no blog do carlos reinchenbach, truta do inácio para ter uma noção do ideal de cinema que ele tem antes de vir aqui fazer comentários impensados.
    E pelo menos o nível da discussão deu uma subida nas última semana, depois da onda inicial dos fanboys. desde que a coisa se mantenha nesse nível de idéias e civilidade para mim tudo bem.

    By Blogger allegro non troppo, at 2:25 PM  

  • Inácio,

    sou tua super-ultra fã e adoro sobretudo teus resumos diários dos filmes da tv aberta na folha.

    acabo de ver o novo zé do caixão e é um filme tão divertido, tão bem feito e muito mais brasileiro do que a maioria do que se tem feito por aqui ultimamente...

    abraço,

    By Blogger mari, at 7:44 PM  

  • Interessante, os fãs do batman que estão escrevendo aqui parecem odiar tanto a baixa cultura quanto a alta cultura.

    By Anonymous david, at 8:03 PM  

  • Inácio,
    Esse filme do Zé do Caixão não tem nada de barato. O Paulo Sacramento fez uma maquiagem no orçamento afim de parecer BO. Por sinal, o verdadeiro filme de terror está em como ele conseguiu dinheiro pra fita. Toda classe de cinema sabe, mas ninguém publica. Quem quiser saber pode perguntar para uns curta metragistas que confiaram a ele uma grana de um importante banco.
    bjs
    Mayla

    By Anonymous Anonymous, at 5:33 AM  

  • Na verdade, Mayla, a informação é pública e está no início da fita: o filme do Mojica foi produzido graças a um concurso chamado justamente de Baixo Orçamento. O resto é lero-lero.

    By Anonymous daniel, at 7:35 AM  

  • Ah tá...Tá bom. Eu vou fingir que acredito nesse seu lero lero.
    Beijos
    Mayla.

    By Anonymous Anonymous, at 1:57 PM  

  • Adoro suas críticas e resumos também, Inácio, mesmo que nem sempre concorde com elas. Pensando bem, nem tenho pq! Eu gosto de ler pq às vezes os pensamentos de algum crítico nos levam à descobrir certas coisas à respeito dos filmes q amamos e odiamos.
    Vc é grande, Inácio.
    Nem devia ter se dado à isso, responder à essa avalanche de asneiras que esses fãs xiitas e desocupados andaram escrevendo aqui.

    By Anonymous Reinaldo, at 4:31 PM  

  • ma(y)la, prove o que está dizendo.

    By Anonymous david, at 7:20 PM  

  • Nisso, concordamos: É hora de colocar o Zé do Caixão on the Spotlights! Taí um cara que pouca gente hoje em dia ocnhece a fundo, e não sabem o que estão perdendo em termos de cinema de terror.

    By Blogger Rafael Rodrigues, at 1:05 PM  

  • This comment has been removed by the author.

    By Blogger Rafael Rodrigues, at 1:07 PM  

  • Não corrigirei os erros de português, pois estou no trabalho. But I'm sorry anyway.

    By Blogger Rafael Rodrigues, at 1:08 PM  

  • "Como já comentei, os leitores de Quadrinhos cresceram (não de tamanho, mas intelectualmente) e para esse público de hoje não seria aceitavel um tratamento infantil para as histórias que lê."

    Ahn...

    By Blogger Jonas Lopes, at 1:29 PM  

  • Inácio, você sempre foi excessivamente agressivo com o Nolan. Lembro desse ódio desde quando saiu "Memento", em 2000 e confesso que nunca entendi o tamanho dessa ira.

    Teu maior argumento sempre foi essa história da suposta pretensão exagerada do Nolan.

    Mas sinceramente não consigo ver tanta pretensão nos filmes dele.

    O cara tá lá fazendo o trabalho dele honestamente em Hollywood, dirigindo bons atores e fazendo filmes interessantes sim, como "Insônia" por exemplo.

    E de independente ele não tem nada mesmo. Mas fez o Batman em duas partes, com o Christian Bale muito bem, o Coringa melhor ainda e um reconhecimento de público e crítica que nem Tim Burton conseguiu.

    Sei não... Até entendo tua crítica. Mas acho que essa tua ira com o Nolan vai além do que deveria.

    By Anonymous vitor, at 11:21 AM  

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