Canto do Inácio

Monday, February 26, 2007

EM TORNO DO OSCAR
INÁCIO ARAUJO

1) Deram o maior cartaz no Oscar para aquele "O Labirinto do Fauno". Francamente, o labirinto ali entra como enganação de um filme que não faz mais que reproduzir a idéia mais feita sobre a Guerra Civil Espanhola: os fraquistas são feios, maus e torturadores; os republicanos, idealistas, bonitos e bons rapazes.
Francamente...

2) Começou a circular há alguns dias uma versão queimativa de "A Rainha", segundo a qual o filme de Stephen Frears não passava de um telefilme.
Não entendo: e engolem essa coisa bruta, feia e provinciana que é "O Labirinto"? E "A Rainha", que entroniza a ambiguidade como poucas vezes se faz, que observa a complexidade da situação e da instituição monárquica - esse é o telefilme?
Francamente de novo.

3) "Borat" faz bem a nós espectadores. Faz com que nos sintamos melhor, porque mais inteligentes do que o resto do mundo. Isso reconforta, mas não resolve problema nenhum. Esse sim, com seu maniqueísmo (anti-EUA e anti-Cazaquistão simultaneamente?) e essa pretensão a big brother ou falso big brother me pareceu um telefilme. Com momentos inspirados, diga-se, bem engraçados. Eles fazem valer a pena que o filme seja visto.

10 Comments:

  • Tava curiosissimo para saber tua opiniao de "Labirinto..." Poxa, que pena que tu n˜åo apreciou muito.

    Andei debatendo com alguns amigos que não concordava com a ideia de que A Rainha seja telefilme.

    Gostou de Dreamgirls, Inacio?

    By Anonymous vebis jr, at 5:59 AM  

  • Caro Inacio...Não há a menor duvida que a maneira que os personagens de "O labirinto do fauno" são retratados é maniqueista..Mas afinal de contas o filme não é uma fabula????
    Pelo que eu entendo desse genero, uma de suas funções é retratar os sentimentos e angustias humanas de forma exagerada e quase sempre com uma moral clara..Não era assim com o tão amado "Magico de oz"..Nunca ouvi ninguém reclamar de maniqueismo nesse filme ou em tantas outras fábulas ditas como clássicas..
    Em o "Labirinto do fauno" capitão Vidal representa a bruxa má e a menina representa a garota inocente que tem q desafiar o mal..A fábula na verdade procura expor caricaturas de nós seres humanos, não se trata de uma realidade irrefutável..
    Mas essa é só minha opinião..
    abraços

    By Anonymous Ze Garcia, at 9:42 AM  

  • (Marcos Anton Nogelli)

    Corroboro Zé GArcia e acrescento: isto não se deve à uma "dificuldade" (gosto pessoal), seu, confessado uma vez há poucos meses na coluna de TV na "Folha", não me lembro falando a respeito de que filme; vc afirmou que tem dificuldade de abraçar a fantasia, fábula sem restrições.

    By Anonymous Anonymous, at 9:13 PM  

  • Salve, Inácio!

    Como está vocÊ? Fui seu aluno no curso de história do cinema há dois anos e fiquei muito feliz de ter encontrado esse seu blog! Sinto falta de mais comentários seus, além dos que leio sempre na Folha, é claro.

    Gostaria de comentar o que você disse sobre o Oscar:

    1. "A Rainha". Também não entendo como este possa ser comparado a um telefilme. Da direção atenta aos detalhes de Frears até o roteiro perspicaz e enxuto, passando, é claro, pela interpretação admirável de Helen Mirren, o filme está bem acima da média, não só de qualquer telefilme que já tenha visto, como de muitos dos seus concorrentes diretos deste ano. Não estou convencido, por exemplo, que o roteiro vencedor de "Little Miss Sunshine", por mais "doce" e cativante que seja, tenha, como um todo, mais qualidades que o de "A Rainha".

    2. "O Labirinto do Fauno". Infelizmente, não concordo com sua opinião sobre o filme. Devo confessar que sempre tive resistência a filmes ditos "de fantasia", justamente por transformar o mundo numa espécie de histórieta do bem vs. mal, recheada de efeitos para encher os olhos, mas não necessariamente "alimentar a alma". Pois, o que vi em "O Labirinto do Fauno"? Uma história contada com muita honestidade, subvertendo aqui e ali o gênero adocidado, mas acima de tudo, emocionando muito. Sim, poderíamos até chamar de maniqueísta o tratamento dado à oposição entre fascistas e liberais. Mas como não se emocionar com aquele médico que enfrenta o general até a morte. E o destino reservado à menina? Lembro-me bem de ter saído do filme (vi-o na Mostra) pensando: "Será que meu preconceito contra filmes de fantasia era, afinal das contas, injustificado? Como fui gostar tanto de um filme desse gênero?!". Mas depois me dei conta que o filme é sui-generis dentro de sua proposta, e tem muito mais sangue nas veias (e algo a dizer) do que seus "similares" mais populares, como "Senhor dos Anéis", por exemplo. Bom, pelo menos foi assim que eu vi a coisa...

    3. "Borat". Sim, um filme engraçado, debochado, que nos diverte muito e que, em alguns momentos, nos deixa admirados pela simples coragem de enfrentar certas situações... como aquela cena entre as feministas, ou aquela outra entre a fraternidade de "stupid jerks". Mas, como cinema... bem, como cinema "Borat" parece ser mais um caso em que as partes agradam mais que o todo. Ou será esse um problema típico de uma boa parte das comédias que se fazem hoje em dia? Dificilmente se sustentam do começo ao fim com o mesmo ritmo e a mesma energia.

    Inácio, grande abraço. Qualquer dia, apareço no seu curso para dar um oi e quem sabe rever uma sessão, ok?

    By Anonymous Carlos Lopes, at 10:38 AM  

  • E Borat teria que resolver algum problema? Não poderia simplesmente sugerir as questões?

    By Blogger Tiago, at 2:00 PM  

  • Eu não gostei também dessa estória de chamarem A Rainha de telefilme. Para melhor filme, foi um dos meus preferidos do Oscar, atrás apenas de Cartas de Iwo Jima. Um abraço e visite meu blogue: blogofsnobs.blogspot.com

    By Anonymous David, at 1:36 PM  

  • RESPOSTA GERAL A VÁRIOS AMIGOS:

    Ok, entendi, entendi! Todo mundo gostou do Labirinto do Fauno. Desculpem, mas não gosto mesmo.

    Agora, só peço que considerem que todo aquele fantástico é feio pra caramba, com aquelas cores carregadas, chatas.

    Na verdade, estou mais perto de acreditar que se trata mesmo de uma fábula. Mas não concordo com o argumento de que, sendo uma fábula, pode-se praticamente fazer tudo.

    Aliás, se a gente tirar a fábula do pedaço, o que sobra é uma hístória sobre a Boa Espanha contra a Espanha Má.

    Quero deixar claro que nunca fui franquista, muito pelo contrário. Mas, caramba, essa é a história que se conta há 60 anos. Não tem mais eficácia nenhuma.

    Mas, ok, vamos discordar desta vez.

    E obrigado geral pela discordância.

    By Anonymous Inácio, at 2:39 PM  

  • Diego, comentando as suas opiniões: não esperava de A Rainha e O Labirinto de Fauno mais do que foram (espetáculos e nada mais). Quanto a Borat, não comentarei um filme que quero que acabe como gênero em Hollywood, pois faz com que as companhias deixem de investir dinheiro em produções mais importantes (fala sério investir grana nesse imbecil do Sacha Baren Cohen).

    (http://claque-te.blogspot.com): Dreamgirls, de Bill Condon.

    By Anonymous Roberto Queiroz, at 4:53 AM  

  • Roberto, aviso que todas as notas por aqui são do Inácio. Eu só posto o material.

    By Blogger Diego, at 12:54 PM  

  • Inácio

    A "impressão de telefilme" atribuida ao filme do Stephen Frears parece ser gerada pela relação "câmera no tripé com sutis movimentos + diálogos bem escritos + estrutura narrativa límpida + desenho dramático claro + investimento nas cenas + organização de espaço sem efeitos estilísticos. Ou seja, a matriz do cinema clássico, quando assumida, hoje seria o Telefilme. Mas que tipo de telefilme? De que exemplos estamos falando? O que vem a mente ao se falar em "telefilme?". Acho que essa impressão de telefilme é muito fruto de uma impressão contemporânea de que a estética do cinema, para não ser TV, deve conter câmera de lá para cá, plano sequência, cortes rentes entre os planos, quebra do eixo em nome do cultivo do fluxo, luz estilizada e atuações naturalistas ao extremo. O que não é isso é telefilme. Seja lá qual telefilme se ve a cabeça quando se escreve ou se fala isso

    abraços
    cléber eduardp

    By Blogger Cléber, at 8:42 PM  

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