Canto do Inácio

Thursday, October 16, 2008

ATOR PROPÕE PROBLEMA QUE NÃO EXISTE
INÁCIO ARAUJO

Pedro Cardoso escreve: "Quando estou nu, sou sempre eu a estar nu, nunca o personagem". Tento me lembrar, inutilmente, de quando Pedro Cardoso, vestido ou não, foi outra coisa que não si mesmo, e me pergunto se esse tipo de propósito não equivale a criar um problema que simplesmente não existe.

Seu ponto, se bem compreendi, é: a nudez, que em algum momento da história já correspondeu a uma atitude libertária, hoje destina-se meramente a atrair público às salas. Trata-se, assim, de algo que avilta a profissão de ator e tende a anular, como diz a namorada, "a tênue linha que nos separa da pornografia".

Na verdade, desde que surgiu, o cinema é acusado de trazer o comércio para o sagrado território da arte. O que não deixa de, em parte, ser verdade. Ninguém imagine que Ruy Guerra não pretendia que seu "Os Cafajestes" fosse visto, quando rodou a famosa cena de Norma Bengell na praia.

De todo modo, essa "tênue linha" de fato tende, por vezes, a ser imperceptível e, pior, a arrastar consigo toda a produção artística moderna. O que dizer, por exemplo, dos romances de Henry Miller? Ou de "O Amante de Lady Chatterley"? E por aí vai. De maneira que esse "lado libertário", já passado, da nudez, não se sustenta.

Não nos faltam problemas no mundo do cinema. Com ou sem nudez, nossos filmes têm sido incapazes de enfrentar a cultura do blockbuster e a comercialização via multisalas; são muito pouco vistos pelo público a que se destinam. Eis coisas que merecem a atenção e a preocupação de produtores, diretores, atores etc.

Se como postulação geral esse manifesto é não mais que um apelo à censura, é preciso atenção ao caso particular. Sugere-se que um diretor teria exibido "rushes" de um filme a amigos e se vangloriado da performance que conseguiu da atriz. É fato muito grave, pelo qual, havendo comprovação, seria cabível, imagino, interpelação judicial. Ao mesmo tempo, é surpreendente uma atriz queixar-se de ter sido constrangida a filmar "cenas que atentavam contra" seu "próprio pudor". Como isso se deu? Ela não leu o roteiro que deveria interpretar? Ou colocaram um revólver na sua cabeça e lhe ofereceram um "negócio irrecusável"?

Toda essa história é tão cheia de elementos estranhos, incompreensíveis, truncados, entreditos, que parece uma ficção mal alinhavada, sombriamente retrógrada, destinada a funcionar como lance de marketing, a serviço não se sabe do que ou de quem.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 13 de outubro de 2008)

18 Comments:

  • Em primeiro lugar, fica todo mundo pelado. Depois, a gente resolve...

    By Anonymous Mario, at 9:41 AM  

  • PADRE Cardoso é um palhaço, no mau sentido.

    By Anonymous Anonymous, at 1:50 PM  

  • Ao menos deve-se dizer que pedro cardoso não está agindo em causa própria, afinal nenhum diretor faria ele tirar a roupa para atrair público.Mas em contrapartida tem que tomar cuidado pra não tornar a coisa algo do tipo, conspiração da TFP, coisa que nao tem a ver com a conduta do cardoso, e parece coisa desse pessoal que chama de 'avanço social' qualquer baboseira.

    By Anonymous Anonymous, at 8:03 PM  

  • auêi

    By Anonymous Anonymous, at 8:07 PM  

  • quando apareceu esse negócio do pedro cardoso eu justamente me lembrei do filme do ruy guerra e do império dos sentidos. creio que hoje em dia tais filmes fossem considerados inapropriados.

    essa atitude me parece um tanto egocêntrica, de alguém que está ficando velho e muito amolecido pela fábrica de vácuo que é a globo.

    Engraçado é que pode fazer comercial de cartão de crédito e não fazer nú frontal, o que mostra quanto essa atitude é incoerente, além de retrógrada e babaca.

    Bem típico de um tempo que o bill gates tá virando um herói e o che guevara um monstro sem asseio pessoal.

    By Blogger allegro non troppo, at 6:14 AM  

  • "Quando estou nu, sou sempre eu a estar nu, nunca o personagem"... Resposta de ator medíocre tsc tsc tsc

    By Anonymous Daniel Fonseca, at 10:22 AM  

  • Nessa estou com o Inacio e não abro:o problema do Pedro não existe.Temos é que aprender a "traficar" os filmes brasileiros dentro da industria cinematografica.

    By Blogger jose, at 11:16 AM  

  • P.S.:Allegro,sou um progressista pacifista.Não gosto do Che e o Bill Gates não é meu heroi.Estou mais para Charles Xavier do que para Magneto.

    By Blogger jose, at 11:22 AM  

  • ps: gosto bem mais do magneto, apesar de não ser muito chegado aos gibis da marvel.

    By Blogger allegro non troppo, at 7:33 AM  

  • Quanta bobagem esse allegro fala, gates e che guevara nem são opostos pra começo de conversa(só é pra quem não consegue enxergar para além das aparências).

    By Anonymous Anonymous, at 10:52 AM  

  • essa frase dele foi mesmo lamentável daniel.

    By Anonymous Anonymous, at 1:27 PM  

  • desculpa, eu sou mais um esquerdiota que perde seu tempo escrevendo coisas desse tipo.

    Vc quis dizer que o gates é um revolucionário? ou que o che guevara é a mesma coisa que um tubarão monopolista com crise de consciência?

    By Blogger allegro non troppo, at 3:44 AM  

  • Seria mesmo moralista o manifesto? Leia-o com atenção, ele pede mesmo por censura? Podemos até discutir se há ou não exagero ou generalizações ali, mas acho equívoco a confusão com censura ou mesmo moralismo. Trata-se, me parece, de uma postura política, de um ato político, de uma coragem que não tenho visto por aí. Não chama resoluções de força, não tem intenções de polícia, mas chama à consciência, à reflexão. Concordemos ou não com a reflexão proposta, em tempos de verdades intransponíveis, de tudo à venda, é mais do que saudável a discussão.
    Um abraço

    By Anonymous Anonymous, at 6:39 AM  

  • Allegro, vocês q costumam comentar aqui tiram umas comparações malucas, coisa de louco. Acho que Gates tem um lado revolucionário sim, ou pelo menos teve, mas é só um palpite.Quando ele era jovem era porra louca inclusive, mas agora sou eu que tyo falando de aparencias.

    By Anonymous Anonymous, at 2:22 PM  

  • É incrivel como este ultimo post anonymous está fora de lugar.Primeiro: ele comete uma generalização,pecado muito combatido pelo Inacio,ao classificar os que comentam aqui de loucos.Segundo:alguns que costumam frequentar assiduamente esse blog,como o Allegro,procuram sempre buscar argumentos lúcidos apesar do viés que existe em cada um.Por exemplo,quando afirmei que era um progressista pacifista estava tentando uma posição paradoxalmente romantica e sensata como li no Texto na Folha do Inacio sobre "Pecados de Guerra" que,aliás, peço,por favor,que o Diego publique.

    By Blogger jose, at 4:42 AM  

  • acho que os anonymous da vida podiam pelo menos inventar uns pseudônimos bacanas para a gente saber com quem a gente tá falando.

    Quanto as comparações: Sei que as elas podem parecer coisa de maluco, mas na hora me apareceu apropriada devido ao clima de caça as bruxas ao pensamento de esquerda e o moralismo new age que aflora na imprensa local: me lembrei de uma veja com uma matéria de capa avacalhando o che guevara e de uma capa horrível de uma época sobre negócios com um retrato quase pornagráfico do bill
    gates ilustrando uma chamada sobre "capitalismo criativo" (blergh!), já que os tubarões de wall street não estão mais na moda.

    Na minha cabecinha de esquerdiota isso ilustra bem um estado de coisas, uma degeneração de conquistas que a geração de 68 conseguiu em diversos setores, incluindo o uso da pornografia nas artes. Pode até ser uma viagem minha, e vc tem todo direito de discordar e de me achar um pseudo-intelectual, mas por enquanto estou no meu direito de me expressar livremente.

    Enquanto ao outro anonymous: O Pedro Cardoso me parece uma pessoa bastante razoável, mas mesmo considerando todas as questões que vc coloca ainda me parece uma atitude dezarrozoada, típica de quem tá ficando mole com a idade. Francamente, em tempos de pixar, retomada e cinemas em shoppings, o nú não me parece uma questão que aflora com frequência do cinema de hoje em dia, tanto que serviria mais para afastar o público, acostumado com as leis férreas de classificação etária que temos atualmente (vide o exemplo do último filme do zé do caixão).

    Como disse o inácio: O sujeito tá criando um problema que não existe, melhor ainda, um problema que já foi exaustivamente repisado e que não tem qualquer motivo plausível de voltar a tona: vide o julgamento do gustave flaubert, do william burroughs, etc, etc, etc. Isso tá com pinta de ser um lance de marketing macabro, um factóide sombrio para chamar atenção para o filme do selton mello, bastante adepto desse poder invisível que é a publicidade brasileira.

    Só para teminar o lenga-lenga com um pouco de cultura: digitem no google "a origem da vida courbet" e vejam como essa questão da pornografia é um tanto quanto gasta.

    By Blogger allegro non troppo, at 8:35 AM  

  • Allegro, me parece exatamente o contrário, atitude de quem não quer ficar mole com a idade. O que lamento, em toda a discussão, é não nos atermos à questão política que o texto traz. Nem sei se o termo pornografia é o mais adequado, mas não me parece que a argumentação siga para o terreno do moralismo, que pressuporia atitudes enérgicas, de polícia ou de censura. Sendo política, chama à consciência, provoca os sujeitos, no caso os atores (e principalmente as atrizes) a dizer não, a se colocar, a questionar. Porque o discurso vencedor combatido pelo Pedro não é somente o do "tudo pela arte", mas, tentando ir mais fundo, é essa idéia de liberdade que hoje virou artigo de consumo, defendido religiosamente até nas arenas mais retrógradas das sociedades (foi em nome dela - não do petróleo! - que se argumentou para varrer do mapa Iraque, Afeganistão e...). Porque liberdade não precisa ser só bundalelê, liberdade pode ser o direito de se contrapor a uma ordem dominante cristalizada. Repito, vale uma (re)leitura atenta do texto.
    Abraços

    By Anonymous Zé Colméia (ex-anônimo, enquanto não encontra pseudônimo melhor), at 2:32 PM  

  • suas reflexões são interessantes, zé colméia. mas vc tem que ver que essa liberdade que precisa ser combatida a todo custo segundo o pedro cardoso têm signifcados diferentes nas diversas esferas da vida: temos a liberdade de expressão nas artes, que nos legou obras como as de henry miller e nagisa oshima, e temos o bundalelê e a "mão invisível" na economia, que está nos levando a ruína. E como sabemos uma se contrapõe a outra quase que diametralmente, devido a influência da direita religiosa na estados unidos e até mesmo no brasil.

    é claro que a liberdade virou artigo de consumo, como aliás quase tudo hoje em dia. É evidente também que o pedro cardoso deve ter razões muito fortes para fazer o que fez, mas com esse discurso ele superdimensiona o problema do nú em sua profissão. Como diletante e postulante a artista não consigo ver o que um nú frontal ou uma cena de sexo possam afrontar um ator, ou que isso seja utilizado hoje em dia como chamariz de público, a ponto de pedir uma mobilização, uma mudança de consciência na classe artística.

    Mas vc realmente tem razão quanto a um ponto: todo mundo tem o direito de se manifestar contra aquilo que discorda, sem que isso se transforme em pretexto a uma caça as bruxas.

    By Blogger allegro non troppo, at 6:02 AM  

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