Canto do Inácio

Monday, September 15, 2008

WALTER & WALTER
INÁCIO ARAUJO

Neste incerto blog, uma rara certeza veio do Juliano Tosi: diz ele que do Walter Lima a gente sempre espera que ele parta de um argumento infilmável e chegue com um filme ótimo.

Quem diria que de uma história de peixe que vira em homem ou vice-versa, como “Ele, o Boto”, sairia um filme? No entanto saiu, e belíssimo.

Portanto, é normal que exista alguma decepção, ou menos que isso, um certo muchocho, em torno de “Os Desafinados”, que era uma idéia ótima.

Acho que dentro de algum tempo é desse filme que vou reter diversas imagens. Aquele quarto com duas camas para cinco caras é um achado.

De todos os personagens, talvez o do Rodrigo Santoro seja o único que não cresce o que se espera dele. Ele carrega sem muito interesse, isto é, sem nos interessar muito, a história do cara com duas mulheres, que ama as duas por razões diferentes. Poderia sair muito humor daí, mas só saiu uma coisa amarrada, meio convencional.

A morte de um personagem, não direi quem, a horas tantas, é tremendamente arbitrária. Tanto mais que ela ocorre na ditadura argentina. Ora, o filme tinha driblado muito bem a brasileira, por que ir até a Argentina para cair numa armadilha dessas?

A morte do personagem é uma arbitrariedade dramática. Morre nas mãos da ditadura, mas podia ter caído num barranco ou levado uma bala perdida. Pode-se argumentar que coisas assim aconteceram. Lembro que Borges dizia que a vida pode ser imprecisa, a arte, não.

Dito isso, apesar disso esse filme é um filme.

O filme do Walter Salles é dos melhores dele em vários aspectos, por exemplo a condução dos atores.

Mas a respeito dele foi a Márcia Pastore, minha amiga escultora, quem disse o que de mais certo escutei. Ela preferia que o filme focalizasse uma família de motoboys, ou de crentes, ou de futebolistas.

Como ficou – e ainda com a mãe faxineira -, ficou um mostruário da S. Paulo periférica, uma espécie de amostra grátis da variedade do brasileiro pobre e honrado, desses que nunca chegarão a “pessoa humana”, segundo especificações do STF, o que na real significa: pode baixar o pau e botar algemas que a Justiça aí vai se fazer de morta.

Sim, também pensei que seria muito mais interessante três ou quatro irmãos crentes. É bem mais fascinante, pois há diferenças entre eles, tensões, etc. E ajudaria a compreender a penetração muito grande dessas seitas e seu papel junto aos pobres.

O André Singer, que é sociólogo, escreve um estranho artigo, na Folha, dizendo que a função central do filme é informar ao topo da pirâmide como vive a base. É isso mesmo que o cinema se transformou: uma arte de elite. Para ela compreender como vive sua faxineira, vai ao cinema. Por quê? Não tem capacidade de conversar com ela, de olhar para as pessoas à volta? É quase certo, e é de assustar.

Do ponto de vista do cinema, porém, isso é muito limitativo. Primeiro, reentroniza a suposição de identidade entre realidade e representação. Isso remete nossos filmes à idade média, quase. Mas é o que lhes sobra como “função social”. Esse é um impasse terrível.

Dito isso, o filme tem uma leveza e um lirismo, uma sincera admiração por essas pessoas que sobrevivem a tantos infortúnios, que acaba arrastando a nossa simpatia. A minha, pelo menos.

Agora, entre um Walter e outro vai uma distância. O Lima só faz direito cinema. Quando o filme entra em política, mesmo que marginalmente, se ferra. O Salles, ao contrário, tem um discurso sociológico ali na ponta da língua. Por isso eu prefiro o filme americano dele, me parece o melhor, é o único que não tem teoria, por isso talvez ele se deixou levar pelas coisas e não pelas idéias.

12 Comments:

  • Pois é. Desceram a lenha pra mim em Os Desafinados. Disseram que era péssimo. Eu não vi isso no filme. Mas quem me disse, não consegue explicar porque é "péssimo" (como não conseguem me explicar porque Cao Guimarães é otimo, mas isso é outra história).
    Tanto o filme do Salles como o do Walter Lima me parecem ter um problema de foco, e não é da cÂmera. Há um medo em se tomar um rumo, uma reta, em se fazer escolhas. A coisa fica abrangente, fala de todos e não fala de nínguém. Em Os Desafinados existem triângulos amorosos frustrados (dois), mas o filme prefere contextualizar, trazer outras questões históricas, faz uma ponte desajeitada com um presente frustrado. Alguns cineastas dos anos 60 tem uma relação meio assombrada com a ficção, com os anos 70 com o regime, o que não seria um problema se isso não azedasse seus filmes. Poucos administram bem isso.
    O do Salles, eu gosto muito da parte do evangélico, inclusive é a única porção do Linha de passe que trás alguma novidade ao cinema do Waltinho. Fatalismo, determinismo não são questões para a fração "evangélica" do filme. Existe outra coisa, não sei bem, mas é mais forte. Mas o pecado aqui, como no filme de Lima, é a necessidade da abrangência. É o fato de não saber o que é essencial. Isso sabota a ficção que precisa de um rumo, uma ascese, de escolhas. COm raras excessões (Carlão, Saraceni) a ficção não parece possível para certo cinema brasileiro. Existe uma coisa, não sei se é "responsabilidade" ou covardia, que joga água no leite de certos filmes. Isso é uma bela merda.

    By Blogger Francis Vogner dos Reis, at 9:55 AM  

  • Eu tb acho que Água Negra é o melhor filme dele até agora. Me parece que o Salles sabe filmar bem e sabe falar bem, mas não sabe transformar os belos discursos dele em cinema sem ficar chatinho.

    By Anonymous daniel, at 1:00 PM  

  • Inacio,esse seu texto evidenciou duas coisas que mostram o quanto Machado de Assis é atual:o descolamento doentio entre a elite brasileira e a realidade e ,em consequencia,a condenação das artes brasileiras a um falso naturalismo que no cinema produz o eterno paradoxo da industria sem alvo,sem público;enfim,a impossibilidade de um cinema popular,a utopia de Glauber Rocha.

    By Blogger jose, at 11:36 PM  

  • Não gostei de nenhum dos dois. Em especial de Os Desafinados, que achei horrível, péssimo. O filme chega a ser constrangedor - e por aí vai o roteiro, as interpretações, as dublagens e algumas cenas em específico.

    O do Salles me incomodou justamente por esse discurso sócio-antorpológico barato. Ele pode bem mais.

    By Anonymous Gabriel Carneiro, at 9:45 AM  

  • linha de passe é um filme bem intencionado, mas não passa disso. A evolução dramática e o desenlace da história parecem forçados, assim como alguns procedimentos próprios do cinema de retomada que parecem estar ficando um pouco gastos. Não gostei.

    By Blogger allegro non troppo, at 5:47 AM  

  • Walter Salles sabe mais cinema do que vocês todos, caras. É a cria híbrida de Ozu e Glauber. Pra mim pega o senso de observação e valor das personagens e cola muito bem na ação das imagens, nada de discurso socio-bosta. Apenas ocara é muito inteligente e bem articulado com a realidade que quer apresentar e vocês ficam assim.

    By Anonymous adamastor, at 6:29 PM  

  • Adamastor,seria bom que você tivesse umas aulas sobre Ozu com Francis Vogner e quanto ao Glauber:ele com toda sua genialidade conseguiu poucas vezes colar um personagem na ação das imagens como em Antonio das Mortes.Cacá Diegues gostou muito de Linha de Passe,mas acho que ele não ousaria dizer que Walter Salles conseguiu realizar a materialização de conceitos que até mesmo para o Glauber era difícil.

    By Blogger jose, at 7:06 PM  

  • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    By Anonymous adamastor, at 7:57 AM  

  • Quando se fala em Walter Salles, tenho visto em vários sites e blogs, não se cita nem de raspão "A grande arte", o seu primeiro longa, que considero o seu filme mais atraente e o melhor de toda a sua filmografia.

    By Blogger André Setaro, at 5:28 AM  

  • to com setaro e também com o inácio: a grande arte e água negra são os melhores do salles

    By Anonymous leo amaral, at 10:23 PM  

  • Inácio, já que vc citou o texto do André Singer, te pergunto: o que achou daquele texto do editor da Ilustrada sobre o linha de passe?
    Abraço.
    Ricardo.

    By Anonymous Anonymous, at 10:33 AM  

  • A Grande Arte é curioso, até pela e´poca em que foi feito.

    By Anonymous Anonymous, at 7:21 PM  

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