Canto do Inácio

Sunday, November 02, 2008

PODER DA ARQUITETURA GUIA ROHMER ATÍPICO
INÁCIO ARAUJO


Tudo em "O Amigo da Minha Amiga" é questão de arquitetura. Arquitetura amorosa, primeiro, pois para as amigas Blanche e Lea trata-se de descobrir o que é verdadeiramente o amor e como distinguir o homem certo do errado. Arquitetura narrativa, em seguida, pois vemos aqui uma dessas histórias com final previsível, onde o que nos dá prazer, no entanto, não é a revelação do que vai acontecer com os personagens, mas de como isso se dará.

Arquitetura propriamente dita, por fim, pois estamos em Cergy-Pontoise, subúrbio pós-moderno parisiense, cidade planejada, com espaços ao mesmo tempo generosos e restritos, pois ali todos parecem se cruzar o tempo todo. Cergy é um local que rompe com os preceitos utilitários da modernidade para afirmar certa vacância do espírito (e da estética).

É, portanto, nesse lugar em princípio meio rebarbativo que Eric Rohmer encontra refúgio para as buscas amorosas. Por uma vez em seus filmes não se discute filosofia, fé, música ou pintura. Os personagens tratam de natação e windsurfe, de férias e namoro.

Há dois anos sem namorar, Blanche suspira pelo bonitão Alexandre, por quem todas as garotas parecem se apaixonar. Lea chegou a um estágio meio crítico em seu namoro com Fabien: não sabe mais se está apaixonada por ele ou não, se o ama ou se aborrece com ele. Saber qual será seu futuro com Fabien implica descobrir quem ela própria é.

O que torna este sexto filme das "Comédias e Provérbios" tão atípico é que, pela primeira vez nesta série o problema se coloca de saída. Habitualmente, os personagens rohmerianos sabem quem são. Ou melhor, pensam que sabem. Acreditam ter domínio sobre seu destino, graças a um exercício mais ou menos permanente de intelectualização dos sentimentos. Tudo passa pela razão.

Aqui, nada disso: assim como a nova cidade se impõe a eles (todos estão lá por necessidade profissional), também os sentimentos impõem-se à razão e, não raro, a superam. Ninguém pensa demais, nem obsessivamente. A preocupação principal de cada um é não machucar quem está por perto, de um modo ou de outro. Mas isso já implica imaginar. Assim como Blanche não está apaixonada por Alexandre, mas por uma imagem - o que logo adivinhamos -, todos imaginam algo a respeito dos demais, o que traz como decorrência a intriga que se desenha diante de nós.

Uma intriga entre pessoas menos intelectualizadas do que nos acostumamos em Rohmer, embora nem por isso seja possível dizer que o filme é menos intelectual. Uma intriga mais clássica do que aquelas a que nos acostumou Rohmer, porque segue certas regras estritamente (o happy end, por exemplo) e não evita mesmo o final um tanto clichê.

Isso, a rigor, não conta: o que nos dá prazer em "O Amigo da Minha Amiga" não é propriamente aonde os personagens chegam, e sim os caminhos que percorrem para chegar a um determinado ponto. Nesse sentido, o filme tem o brilho de um grande Rohmer e nos ajuda a esperar que um distribuidor iluminado nos traga seu "Agente Triplo".

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 23 de julho de 2005)

3 Comments:

  • Esse trabalho dele é excepcional,praticamente uma reinvenção poderosíssima de uma certa comédia clássica!

    By Anonymous Alessandro, at 8:41 AM  

  • É um Rohmer tão simpático quanto "A mulher do Aviador", mas gosto mais do "Raio verde", do "Minha noite com ela"; e lendo seus comentários tive dimensões melhores sobre "Conto de outono" e sobretudo "Amor à tarde". E "o joelho de Claire", "Renette e mirabelle", "Pauline a la plage" etc. Quando morava em SP o Top Cine era uma alegria particular com as maratonas Eric Rohmer. Inacio, aqui em BH tudo é de uma pobreza incrivel! Não falo de $$ e sim de iniciativas (exceto pela galerinha da Ufmg, que sempre dá um jeito de passar diversos filmes).

    Pitaqueio sobre cinema em byron-shelley.blogspot.com.

    Abraços!! - Andre

    By Blogger byron-shelley, at 7:52 AM  

  • E o tal do Agente triplo já chegou?

    By Blogger byron-shelley, at 7:54 AM  

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