Canto do Inácio

Friday, May 04, 2007

CINEMA TORTO, CINEMA MORTO
INÁCIO ARAUJO

Ok, no post anterior eu estava muito irritado. Tinha saído do filme e fiz uma espécie de desabafo. Mas não um linchamento, Nelson. Para começar, porque aqui eu me vejo conversando com amigos: não me sinto na obrigação de dar grandes explicações para cada coisa etc.

Segundo, porque este filme foi bastante elogiado e me parece que estamos ficando sem critério completamente. Repito: se desse tudo certo, este seria um filme dos anos 40, da representação clássica. Ninguém mais faz isso. Eu digo: no mundo! Não é possível que esse modo de fazer cinema vire padrão no Brasil agora.

Então, não é nada pessoal, longe disso. Muito longe: me parece que estamos com um problema de completa ausência de política para o cinema. O que existe é uma espécie de omissão de política. O Estado repassa a responsabilidade à “sociedade”. Ela fará os filmes que acha melhor. A “sociedade” repassa a responsabilidade ao Estado, de volta, pois o essencial da coisa fica nas costas da Petrobrás e outras “brás”. O começo dos nossos filmes é aquele desfile ridículo de patrocinadores.

O discurso atual no cinema brasileiro consiste em dizer que temos produção, mas não temos distribuição.

Ok. E vamos distribuir o quê? “Proibido Proibir”?

Os distribuidores pulam fora quando se vêem diante de um filme como o do Tonacci. Por quê? Eles dizem que isso é “anti-comercial”. Aí eles distribuem um “filme comercial”, não necessariamente ruim, e aí quantos espectadores dá? Nada. Então, desculpem, o gargalo não está na distribuição: existe um curto-circuito entre o que o público pretende ver e o que os filmes querem mostrar. Eu estava na porta do cinema, quando fui ver o “Proibido”. Havia um casal atrás de mim. Tive a sensação de que eles veriam qualquer coisa, um filme já começado, qualquer coisa, mas não um filme brasileiro. Então, não adianta eu chegar no jornal e dizer que é uma beleza. O leitor não vai atrás. Se eu disser isso, ele não ganha confiança no filme. Ele perde confiança em mim. Ele vai me achar desonesto, complacente, essas coisas. Se nós queremos falar de uma indústria de cinema, então vamos começar a tratar dessas coisas a sério.

No mesmo dia, vamos convir, a sessão do “Batismo de Sangue” do Ratton estava lotada. Eu acho o filme meio problemático, um filme “de grande tema”. Mas ele conseguiu se vincular a alguma coisa, conseguiu se tornar interessante para algumas pessoas. Então, mal ou bem, faz sentido. Vamos discutir o filme. O mesmo se diga do “Zuzu Angel”, do Sergio Rezende, que me parece até um filme melhor. Ou até do Daniel Filho, que todo mundo fala mal, mas que a cada filme bota 2 milhões de pessoa na sala. Agora, eu gosto mais do “Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, que me parece mais sincero, mais vivido, que pega muito bem a história do bairro judeu, tudo isso. E que as pessoas também quiseram ver. Não é um filme do outro mundo, tudo bem, mas é deste.

Então, se eu fosse da Ancine (o que está muito longe dos meus planos) me preocuparia em montar um departamento de marketing que subsidiaria os produtores, para saber o que pode interessar a tal público etc. e tal.

Se o que o público quer ver é isso, se do que precisamos é uma indústria, pau na máquina. Não há no que pensar. Mas para isso acontecer é preciso que esse filme 100% subsidiado desapareça, que corra algum risco. Enquanto isso não acontecer nossa verdadeira arte será a arte da captação.

De todo modo, eu vou ficar aqui no meu canto, enchendo um pouco saco. Lembrando que o mundo inteiro não escreve, não filma e não monta mais assim. Que os únicos momentos em que o cinema brasileiro teve importância foi quando, em vez de copiar o que se fazia, inventou. Quando foi vanguarda tecnológica, quando criou um modo de produção adaptado às condições do país.

Alguém disse aqui que eu faço tabula rasa do cinema brasileiro. Não é verdade. Acho que temos talentos que em condições favoráveis podem se desenvolver muito bem. O Beto Brant é um deles. O Lírio Ferreira também. Falo dos que estão com filmes em evidência, de que lembro agora. Há outros, claro. Agora, mesmo esses, o modo de produção não ajuda. Ele é perdulário.

Bom, parece que eu tomei um chá de Merten: não paro mais de escrever.

Passou o efeito.

Só para terminar, e acho que estou respondendo de novo a alguém, talvez ao Nelson: o problema não é ter pobre nos filmes. Se isso me incomodasse eu teria mudado não de país, mas de atividade. O problema é que a representação do pobre é de um convencionalismo absurdo. Ficou melhor assim?

Vou explicar. Estou cheio de ouvir que Hollywood é maniqueísta. Ok. Então eu vou ver o “Batismo de Sangue”: padre é bom, tira é mau (aceitemos que, pelo menos, tira é mau – mas é uma verdade tão óbvia que já se podia fazer algo diferente, não?). Aí vou ver o “Proibido Proibir” e o camelô é um anjo e o policial corrupto e assassino.

Tudo bem. E Hollywood é maniqueísta. Nós não. Não se fala mais nisso.

11 Comments:

  • bom, eu entrei no seu blog hj e confesso que quase desmaiei...nunca uma pessoa expressou tão bem o que acho de filmes como Proibido Proibir.

    Obrigado!

    abs e passa lá!

    By Blogger Rafa di Luca, at 9:09 PM  

  • Inácio, meu caro:
    Três observações em relação aos pots de Proibido Proibir.

    1) É no mínimo curioso ver como esse filme divide críticos e público. O Calil disse algo assim no No Mínimo. Eu sou do time dos que não gostam. Na Folha ele tem três estrelas, em outros lugares tomou pau. Fui membro do júri no Festival Luso Brasileiro de Portugal no ano passado e houve uma divisão renhida, mas prevaleceu o bom senso e Proibido Proibir não levou melhor filme nem direção. Vejo até algumas qualidades, mas cenas como a do tiroteio, que esbarra no hiper realismo de Batismo de Sangue, só reforçam a idéia que muitos cineastas parecem não acreditar no poder de sugestão do cinema.

    2) Você mistura dois modos de produção distintos ao falar da captação das "brás" e do edital de baixo orçamento. Na captação via leis de incentivo, o sujeito (diretor, produtor ou ambos) sai com o roteiro debaixo do braço e bate à porta de estatais (as 'brás') e empresas privadas (cada vez menos desde escândalos como Chatô e Bengell). Esse método é, a meu ver muito ruim, pois favorece quem tem mais contato com empresas, é mais famoso (vide Guilherme Fontes). As empresas estão mais interessadas no produto, em que ator famoso vai estar no filme, do que na qualidade. É o sistema que mais tem acrescentado bombas em nossa filmografia. E, last but not least, falcatruas, escândalos e superfaturamentos.

    No Baixo Orçamento, chamado B.O., há um edital onde a Ancine dispõe de alguns milhões para investir em filmes de custo baixo (em torno de um milhão de reais). Nesse caso, seleciona-se roteiros avaliando sua qualidade e viabilidade técnica em relação ao custo. Esse me parece o melhor modo de produção, não apenas porque eu prefiro dez filmes de um milhão a um filme de dez milhões, mas porque o que está em questão, na hora de dar o dinheiro, é um mínimo de qualidade, que varia de acordo com a capacidade da comissão de seleção. Nosso cinema ganharia bem mais se o dinheiro de renúncia fiscal dado aos produtores via lei de incentivo fosse canalizado para esses editais públicos que selecionam o roteiro, não o charme (para não dizer outra coisa) do produtor. Basta lembrar que, no primeiro ano do B. O., em 2001, foram selecionados onze filmes, dentre eles "O Invasor", "Houve uma Vez Dois Verões" e "Amarelo Manga", entre outras preciosidades.

    3) Você comete uma injustiça com a comissão de seleção desse edital. Lembre que a comissão julga os roteiros. Talvez o roteiro de Proibido Proibir fosse razoável. Você sabe melhor do que eu que ocorre entre o roteiro finalizado e o que chega às telas depende essencialmente daquele cidadão que grita: "Ação!"
    Abraços
    Marcelo Lyra

    By Blogger marcelolyra, at 8:57 AM  

  • Não entendo (nem faço muita questão de entender) os meandros de produção/distribuição do cinema nacional. Só sei que há algumas exceções que ainda me fazem ainda acreditar no cinema brasileiro. Para ficar apenas em exemplos recentes, destacaria "O Céu de Suely", "Cinema, Aspirinas e Urubus", "Os 12 Trabalhos", e até mesmo "Antônia".

    Acho que porque consigo ver algo em comum nesses filmes: como diz o Marcelo acima, seus diretores ainda parecem acreditar "no poder de sugestão do cinema". Pelo menos, há neles silêncios, pausas, alguma ambigüidade, descompromisso com o "efeito agrada-fácil"... e boas interpretações. Evita-se aí, até onde posso ver, o maniqueísmo de que, conforme lembra o Inácio, os filmes hollywoodianos costumam ser acusados (não sem razão, afinal, né?).

    Bom, mas será que o problema maior do cinema brasileiro é a falta de ROTEIROS consistentemente bons? Quem sabe um desses órgãos institucionais não investisse seriamente nessa frente?

    Abraços,
    Carlos Lopes

    By Anonymous Carlos Lopes, at 10:20 AM  

  • Acho que você pega um ponto fundamental do cinema brasileiro pós-retomada e constantemente ignorado pelos jornalistas e críticos: a questão mercadológica.
    Não adiante falarmos em idústria do cinema brasileiro quando as produções são canhescas, quando não temos idéia do que o público possa querer assistir. Toda classe tem uma miopia quanto a isso.
    Estamos numa fase tão nebulosa que só produzimos um sucesso comercial por ano, e ainda assim devirado de seriados e cópia de novelas globais. Ou seja, sem um minímo de relevância cinematográfica. Você também tem razão quanto ao financiamento. Enquanto os produtores não correrem algum risco financeiro, já que risco artístico seria pedir muito nos dias de hoje, nossos filmes serão esta pasmaceira de sempre. Mas num sistema surreal no qual o produto vive à parte do mercado, no qual os produtores já saem com os bolsos cheios desde o início, só sobram os parasitas dos editais.
    E ainda temos cara de pau de difamar Hollywood!

    Obs: Inácio, não sei se você já leu, mas hoje o Ratton publico uma texto no Globo em que comenta muitas das críticas que você fez. É um primor do humor e da auto-promoção.

    By Anonymous Marco Rodrigo, at 11:39 AM  

  • Inacio Araujo, gostaria de conversar com você. Algum e-mail em que eu possa entrar em contato ?
    abraço
    Luís Bacchi

    By Anonymous Luís Bacchi, at 9:06 PM  

  • Inácio, o que vejo no cinema brasileiro é um paradoxo de ordem estética. Para quem é o filme? De que forma o filme é feito? Que estética comercial é essa? Proibido Proibir é um filme que reflete muito bem isso. O formato quadradinho tentando buscar um olhar pseudo-verdadeiro de uma juventude universitária. Esse olhar estereotipado, maneirista e cheio de estigmas. E ai, corroborando e reafirmando o que você brilhantemente já disse: esse olhar parte para o maniqueísmo que tanto criticamos existir fora, mas que está arraigado fortemente em nosso cinema.
    O que não dá pra continuar abaixando a guarda para essa estética, como se ela fosse solução para tudo, como se fosse única.

    Abraços

    Leonardo Amaral

    By Anonymous leonardo amaral, at 9:07 PM  

  • This comment has been removed by the author.

    By Blogger Wolf, at 12:10 PM  

  • Inácio, gostaria muito de ler sua opinião sobre Lost Zweig do Silvio Back que, infelizmente, estreou apenas em uma sala (sala 4 do frei caneca).
    Sem dúvida não é um filme desses que o dpto de mkt que você sugeriu recomendaria. Mas, na minha opinião, é uma grande película.

    Abraço.
    Wolf.

    By Blogger Wolf, at 12:13 PM  

  • Ignacio,
    Esqueci de deixar meu e-mail: luis-sp-br@hotmail.com

    By Anonymous Anonymous, at 2:18 AM  

  • Caro Inácio, sugiro uma lida na crítica publicada pelo Nelson Hoineff lá no Criticos.com.br. A meu ver, foi quem abordou os problemas do filme da forma mais certeira e elegante, dentro do contexto da política de produção e distribuição cinematográfica brasileira:
    http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1232

    abraços
    Janot

    By Anonymous Marcelo Janot, at 2:03 PM  

  • Inácio,

    Para estender esta discussão sobre cinema brasileiro estou muito curioso para saber que visão você tem de "Baixio das Bestas" de Cláudio Assis de modo geral e da representação dos pobres que faz em particular.
    Abraços,
    Nelson

    By Anonymous Nelson Rodrigues de Souza, at 9:06 PM  

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